Rio de Leite

Bovino Pantaneiro: uma espécie em extinção

21 Setembro 2014  Imprimir 

Como dizia Charles Darwin, naturalista britânico do século 18, a espécie que sobrevive é aquela que melhor se adapta às mudanças ambientais. Foi justamente essa característica de adaptação que garantiu a existência dos bovinos da raça pantaneira em Mato Grosso do Sul – um gado geneticamente resistente e que tem sobrevivido às condições ecológicas extremas do Pantanal. No passado, chegou a somar milhões de cabeças e durante anos foi a base da economia da região, mas hoje se encontra em vias de extinção.

Quem explica o fato é o pesquisador e professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) campus de Aquidauana, Dr.Marcus Vinicius Morais de Oliveira. “Com a vinda de colonizadores europeus para a América do Sul, chegaram também bovinos de diversas raças, que com o passar do tempo cruzaram-se e tiveram de se moldar ao meio onde eram criados. Com isto, surgiram agrupamentos genéticos específicos, como é o caso da raça pantaneira - naturalizada e perfeitamente adaptada às condições do Pantanal”.

Assim, mais de 400 anos de seleção natural resultaram num grupo genético rústico e apto para sobreviver em condições de estresse hídrico e alimentar, entre épocas de secas e cheias, apresentando índices de maior natalidade e menor mortalidade se comparadas com as raças zebuínas criadas atualmente no Pantanal.

Porém, de acordo com o pesquisador, o cruzamento do gado pantaneiro com outras raças comerciais representa a sua principal ameaça de extinção. “Acredita-se que existam atualmente cerca de 500 desses animais criados em um número reduzido de propriedades no Pantanal. A perda deste grupo genético representaria um dano significativo e irreversível para a ciência e para a pecuária brasileira, pois características ímpares de rusticidade adquiridas ao longo dos séculos de seleção natural poderão ser perdidas”, alerta Oliveira.

O queijo Nicola, por exemplo, que é um produto típico do Pantanal, preparado com o leite das vacas pantaneiras e que não necessita de refrigeração para sua conservação, também estaria ameaçado de extinção.

Pensando nessa problemática, Oliveira coordena um projeto de pesquisa fomentado pela Fundect que busca fortalecer o Núcleo de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana  (NUBOPAN) na região do Alto Pantanal Sul-Mato-Grossense, promovendo a sustentabilidade ambiental e econômica da atividade leiteira praticada no Estado.

“O projeto Avaliação do potencial leiteiro em bovinos da raça pantaneira faz parte da Rede Caracterização, Conservação e Uso das Raças Bovinas Locais Brasileiras: Curraleiro e Pantaneiro, e vai gerar informações como o desempenho produtivo (curvas de lactação e qualidade do leite) e reprodutivo de vacas pantaneiras que recebem diferentes forrageiras, bem como a performance de bezerros lactentes, mantidos em regime de pastejo com ou sem suplementação”, explica o pesquisador.

Para a execução das ações, o projeto conta com uma equipe multidisciplinar de professores, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação e possui articulação com a EMBRAPA Pantanal, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), sendo as análises laboratoriais executadas na UEMS e nas instituições parceiras da Rede.

“É notório que faltam programas de conservação de raças, especialmente nos países em desenvolvimento, onde se encontram as maiores reservas de raças domésticas localmente adaptadas. Este projeto possui, além da geração de informações técnicas, o compromisso de contribuir com a conscientização da população sobre a importância da preservação da biodiversidade genética da raça Pantaneira”, argumenta Oliveira.

Junto a este trabalho, outros projetos estão sendo financiados pelo Centro de Pesquisa do Pantanal (CPP), MCTI e CNPq. “A Fundect é uma parceria essencial para a execução deste trabalho tendo um papel pró-ativo na captação de bolsas de pesquisa e no fomento junto aos órgãos federais para a abertura de novos editais, em especial da Rede Pró-Centro Oeste”, lembra o pesquisador.

- Apesar de reduzirem sua estatura corporal para se adaptarem às condições da planície pantaneira, estes bovinos ainda conservaram de seus ancestrais taurinos a elevada habilidade materna e longevidade.

- Possuem menor exigência nutricional, característica importante devido à escassez de alimento no período de seca e ao estresse hídrico no período das enchentes. São os únicos bovinos capazes de suportar por meses seguidos as condições de umidade constante nos cascos.

- Capacidade de proteção a si mesmos e das crias contra o ataque de onças e menor infestação de verminoses e carrapatos, devido ao couro grosso e resistente.

- A maioria possui pelo curto de cor castanha mais ou menos escura ou vermelha, com tendência a clarear no dorso. Existem também animais vermelhos bem escuros tendendo ao negro e ainda os malhados de branco, e outros totalmente pretos ou brancos.

- O focinho é preto circundado com um anel de pelos brancos, calda comprida e delgada, e quarto posterior pouco desenvolvido. Os chifres são curtos e finos, voltados para frente, com as pontas para cima.

- A produção de leite dos bovinos pantaneiros foi verificada utilizando-se vacas primíparas, ou seja, novilhas de primeira cria, alimentadas com dietas contendo feno de capim braquiária e diferentes níveis de ração concentrada.

- As vacas foram ordenhadas duas vezes ao dia e a produção de leite encerrou-se naturalmente aos 150 dias após o parto. A determinação da qualidade nutritiva do leite foi efetuada a cada 14 dias, sendo determinados os teores de gordura, proteína, lactose e sólidos totais não gordurosos.

- A produção média de leite desses animais foi na ordem de 5,11 kg/dia ou 6,37 kg se a mesma for corrigida para 3,5% gordura. Em alguns animais observou-se o pico de lactação superior a 14 kg de leite/dia.

- No MS a produtividade média das vacas leiteiras é de 2,2 kg/dia. Ou seja, estes primeiros resultados sobre a curva de lactação comprovam a identificação de animais geneticamente superiores para a produção de leite.

Oliveira salienta que por meio destes primeiros resultados obtidos na pesquisa já se justifica a preocupação e necessidade em se preservar a raça pantaneira. “Este trabalho auxiliará ativamente nos futuros programas de melhoramento genético da raça e, consequentemente, na conservação desta espécie”. 

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